Por Silvério Machado
O atacante faz dois gols (da vitória) em um jogo e, ao invés de ser aclamado pela torcida, recebe sonoras vaias. Em outro jogo, um jovem atacante faz sua estreia como titular pelo time profissional. Enfrenta um Maracanã lotado, e faz o gol que abre o placar, apesar de seu time tomar a virada. Quando chega ao aeroporto, todo time é aplaudido, menos o autor do gol, que é sumariamente vaiado. Sim, os dois casos são verdadeiros e aconteceram no futebol brasileiro. O que está por trás das duas histórias? A rivalidade entre os clubes e a velha discussão sobre entregar ou não uma partida.
O primeiro caso se refere ao atacante Grafite, que disputou a última Copa e atualmente está no Wolfsburg, da Alemanha. No Campeonato Paulista de 2004, Grafite defendia o São Paulo, que na última rodada enfrentava o Juventus. O time da Mooca estava lutando contra o rebaixamento com o Corinthians. Se o São Paulo perdesse o jogo, o Juventus se salvaria e, consequentemente, rebaixaria Corinthians. E eis que Grafite fez dois gols na vitória por 2 x 1 e ajudou o rival. Pontos para ele no fator ético. Mas a torcida são paulina jamais o perdoou. O personagem da segunda história é Roberson. Na 38ª e última rodada do Brasileirão do ano passado, o Inter enfrentava o já rebaixado Santo André, no Beira Rio e, além de vencer, dependia da ajuda do arqui-rival Grêmio, que jogaria contra o Flamengo, no Maracanã. O Inter fez o dever de casa, venceu por 4 x 1, e o empate na partida do Rio lhe garantia o título. No começo do jogo entre Flamengo e Grêmio, as mais de 84 mil pessoas presentes no estádio e milhões pela televisão viram um garoto fazer 1 x 0 para os visitantes. Algo inacreditável aconteceu: festa no Beira Rio em comemoração a um gol do Grêmio. O Flamengo depois virou o jogo e se sagrou campeão, deixando o Inter com o vice no campeonato. Festa da torcida rubro-negra e também dos gremistas, que perderam a partida.
Novamente a história se repete ao fim do Brasileirão. Corinthians, Fluminense e Cruzeiro disputam o título. Dois dos últimos três jogos do tricolor carioca são contra rivais históricos do Corinthians: São Paulo e Palmeiras. As torcidas palmeirense e são paulina já lançaram a campanha para que os times entreguem os jogos e prejudiquem o Corinthians. Torcem para que o próprio time perca. Ou melhor, torcem para que o rival não ganhe. Mas até que ponto os jogadores se deixam contaminar pelos pedidos da arquibancada? Será que um jogador profissional realmente entra para perder um jogo?
São perguntas que vêm à tona e que geram muitas discussões. O que deve fazer o jogador: fazer um gol e ser odiado pela própria torcida ou entregar para prejudicar o rival? São questões sem respostas definitivas. Os jogadores negam veementemente que entram para perder. Há quem duvide. Mas não há como provar. No ano passado, o Grêmio foi com a equipe reserva enfrentar o Flamengo, o que gerou acusações e foi dado como prova de jogo entregue. Mas nada garante que o time titular venceria no Rio. Aliás, o time gremista conseguiu apenas uma vitória fora de casa em todo o campeonato passado. Este ano é a vez do Inter dar o troco e escalar o time reserva contra o Botafogo, que luta com o Grêmio por uma vaga na Taça Libertadores.
Enfim, sempre haverá acusações da existência de jogos entregues para prejudicar o adversário. Na falta de provas, resta reverenciar “Grafites” e” Robersons”, que colocam o futebol e o respeito ao torcedor acima de qualquer coisa. O respeito ao torcedor não se dá quando se faz o que eles querem. Na verdade, mais respeita o torcedor aquele que honra a camisa que veste.
BATE BOLA
- O árbitro Sandro Meira Ricci, que apitou o polêmico Corinthians x Cruzeiro, é um dos favoritos para, pasmem, ganhar o prêmio de melhor árbitro do Brasileirão. O próprio técnico cruzeirense, Cuca, afirmou que havia votado nele como o melhor do campeonato. Em toda a competição, ele já foi escalado em 20 jogos, sendo o segundo que mais apitou, perdendo apenas para Carlos Eugênio Simon, que foi o árbitro em 22 jogos. No total, Ricci, que faz parte da Federação do Distrito Federal, mas é mineiro de Poços de Caldas, já distribuiu 124 cartões amarelos (média de 6,2 por jogo) e 11 cartões vermelhos.
- Por falar em melhores do campeonato, deixo registrada a seleção do Brasileirão, em minha opinião: Jefferson (Botafogo), Mariano (Fluminense), Dedé (Vasco), Rhodolfo (Atlético-PR), Roberto Carlos (Corinthians); Jucilei (Corinthians), Elias (Corinthians), Montillo (Cruzeiro), Conca (Fluminense); Neymar (Santos), Jonas (Grêmio). Téc: Joel Santana (Botafogo); árbitro: Carlos Eugênio Simon.
- Bastante contestado, o atacante Rafael Moura tem se destacado neste final de ano. Se não conseguiu evitar a queda do Goiás para a 2ª divisão, já que parece bastante improvável a permanência do time goiano na elite, o jogador tem feito vários gols. Nos últimos 20 jogos, foram 12 gols marcados. No Brasileirão, é o artilheiro do time, com nove gols. Na Sul-Americana, ele é o principal responsável por levar o Goiás até a fase semifinal: fez seis dos nove gols anotados pela equipe, não considerando os jogos contra o Palmeiras. Estes seis gols fazem de Rafael Moura o maior artilheiro de um clube brasileiro, na história da competição, em uma única edição da Sul-Americana. Antes dele, Fred, em 2009, Alex e Nilmar, em 2008, haviam marcado cinco gols.
- O presidente da Comenbol, Nicolas Leoz, admitiu que a entidade estuda a possibilidade de incluir times dos Estados Unidos na Taça Libertadores da América a partir de 2012. É uma medida que pode trazer muitas mudanças na competição, pois para “encaixar” mais times na Libertadores teria que fazer arranjos: ou aumenta o número de times (atualmente são 32) ou tira vagas que são destinadas a times de países sul-americanos, o que provocaria uma comoção das respectivas federações. A favor da decisão, pesa o aumento das receitas financeiras, com a abertura de mais um mercado que tem crescido bastante nos últimos anos.


