Por Silvério Machado
O saudoso apresentador Chacrinha dizia que veio para confundir, não para explicar. Este bem que podia ser o slogan da CBF. Sempre que há algum tema polêmico, ela sempre dá um jeitinho de complicar ainda mais, haja vista a Taça das Bolinhas e agora com a unificação dos títulos brasileiros.
Para compreender todo o imbróglio, tem-se que fazer um passeio na história do futebol brasileiro: a Taça Brasil foi criada em 1959 e foi uma solução encontrada pela Confederação Brasileira de Desportos (CBD) - que comandava tudo ligado ao esporte no Brasil – só no começo da década de 70 que as confederações foram descentralizadas e surgiu a CBF, por exemplo, para indicar os representantes brasileiros na Libertadores, que seria criada em 1960. Em sua primeira edição, participaram 16 clubes, mas o sistema de disputa era eliminatório e mais parecido com a atual Copa do Brasil do que com o Campeonato Brasileiro. E havia um agravante no regulamento: os times do eixo Rio-São Paulo só entravam na disputa na semifinal, possibilitando que Palmeiras (1960), Santos (1963 e 1965) e Botafogo (1968) fossem campeões realizando apenas quatro partidas. É isso mesmo, times agora considerados campeões brasileiros precisaram de apenas 360 minutos para sê-lo. Mais: s Santos, maior campeão da Taça Brasil, foi pentacampeão entre 1961 e 1965, disputando ao todo, 24 partidas somadas todas as conquistas. Só a título de comparação, o Fluminense, atual campeão brasileiro, venceu a competição após disputar 38 partidas.
Já o Robertão ou Taça de Prata, tem sua origem no torneio Rio - São Paulo, que era disputado desde o começo da década de 50 e em 1967 ganhou a presença de clubes de Minas Gerais, Rio Grande do Sul e Paraná, passando a se chamar Torneio Roberto Gomes Pedrosa. Há de se ressaltar que o Robertão não veio para substituir a Taça Brasil, que continuou sendo disputada paralelamente em 1967 e 1968. Aí é que surge o detalhe mais curioso dessa discussão: em 1967, o Palmeiras venceu a Taça Brasil e o Torneio Roberto Gomes Pedrosa. Então, com a decisão da CBF, o Palmeiras conseguiu ser DUAS vezes campeão brasileiro no mesmo ano. É justo?
Antes de surgir a informação que a CBF vai realmente oficializar a unificação das conquistas, muitos a defendiam mesmo sem saber o que estava defendendo. Agora, já estão surgindo os que defendem que apenas os vencedores do Robertão sejam considerados campeões brasileiros. E os vencedores da Taça Brasil? Vão ficar esquecidos? Vão ser equiparados aos campeões da Copa do Brasil, uma competição que começou oficialmente apenas 21 anos depois da última Taça Brasil? Os que buscam reconhecimento aos títulos do passado vão simplesmente ignorar a competição que era a mais importante do país entre 1959 e 1966?
Parece que a decisão da CBF cria mais problemas do que soluções, para variar. Além do mais, abre precedentes perigosos, pois qualquer clube que tenha vencido torneios interestaduais antes de 1971 vai querer o reconhecimento do título como Campeonato Brasileiro. Daqui a pouco, o Vasco, campeão Sul-Americano de 1948, vai querer ser considerado bicampeão da Libertadores da América, e o Palmeiras, campeão da Copa Rio na década de 50, vai pedir reconhecimento como campeão mundial, aliás, o clube já está lutando por isso na FIFA.
Também acho que os títulos do passado devem ser valorizados. Os campeões da Taça Brasil e do Robertão tiveram conquistas suadas e emocionantes que devem ser lembradas e reconhecidas como importantes, mas não considero que estas conquistas devem valer como Campeonato Brasileiro. Em 1971, a CBF anunciou a criação do Campeonato Brasileiro e não a transformação do Robertão em Brasileirão. A CBF criou a segunda divisão no Brasileirão, para ter todos os estados representados e assim legitimar a competição. Não creio que o não reconhecimento como Campeonato Brasileiro tire a importância das conquistas. Para mim, o Santos é bicampeão Brasileiro, pentacampeão da Taça Brasil e campeão do Robertão. Todos são importantes, mas são títulos diferentes.
O jornalista Paulo Vinicius Coelho faz uma metáfora que explica bem a situação: não é preciso chamar Dom Pedro I de presidente da República só para reconhecer sua importância na história.
Como é a galeria de títulos do Brasileirão – disputado desde 1971
6 títulos – São Paulo e Flamengo
4 títulos – Corinthians,Palmeiras e Vasco
3 títulos – Inter
2 títulos – Grêmio,Fluminense e Santos
1 título – Atlético-MG,Atlético-PR,Bahia,Botafogo,Coritiba,Cruzeiro,Guarani e Sport
Como fica a galeria de títulos brasileiros após a decisão da CBF
8 títulos – Santos e Palmeiras
6 títulos – São Paulo e Flamengo
4 títulos – Corinthians e Vasco
3 títulos – Fluminense e Inter
2 títulos – Bahia,Botafogo, Cruzeiro e Grêmio
1 título – Atlético -MG, Atlético-PR, Coritiba, Guarani e Sport


