A Notícia

Sábado
19 de maio de 2012

Pelo bem dos Estaduais

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Por Silvério Machado

Como é bom ter o futebol de volta! Depois de um longo período, que parece maior, eis que temos de volta a bola rolando pelos gramados do Brasil. Saem de cena as novelas, negociações, especulações e outros termos comuns nesta época de “seca” futebolística e entram em campo os artistas do espetáculo. Agora ouviremos falar mais de Ronaldinho Gaúcho que de Assis; mais de tática do que de cláusulas contratuais, mais de jogos do que treinos físicos.

Não obstante a esta alegria por ver a bola rolar novamente, é impossível deixar de apontar os erros na primeira competição disputadas pelos clubes: os campeonatos estaduais. Existe uma forte corrente de pessoas que defendem o fim dos torneios estaduais. Não faço parte deste grupo. Sou apaixonado por esses campeonatos, seja pela tradição que eles representam ou, principalmente, pela rivalidade aflorada através da disputa. O Fla-Flu não seria Fla-Flu sem os estaduais. E o fim deles representaria também praticamente a extinção de clubes cheios de histórias, como Bangu, Olaria, Madureira, América, só para citar alguns do Rio de Janeiro. Apesar de não viver na época áurea desses clubes, reconheço e valorizo a tradição e a história deles, que ajudaram a construir a rica histórica do futebol carioca e brasileiro.

Mas a tradição dessas competições não pode servir de justificativa para o “inchaço” que vem ocorrendo nos estaduais. No Campeonato Carioca, por exemplo, são 16 equipes. Um número muito alto, ainda mais se for considerado o (baixo) nível dos times pequenos. Até 2007, era 12 equipes, número que considero aceitável. No Campeonato Paulista, o número de participantes chega a incríveis 20 clubes, e eles se enfrentam ao longo de 19 rodadas, fora a fase final. Um absurdo que consome 23 datas do calendário do futebol brasileiro e faz com que as equipes não tenham um tempo mínimo de pré-temporada.

Em entrevista recente, o goleiro Rogério Ceni, do São Paulo, foi muito sincero e corajoso ao afirmar que os estaduais servem mais às federações que aos clubes. Ceni foi preciso em sua análise. Ao aumentar o número de equipes, as federações diminuíram o nível técnico da competição para fazer política com os clubes pequenos, o que rende votos nas eleições das respectivas federações. É um círculo vicioso e não virtuoso. Com isso, se gasta muito tempo em jogos de baixo nível técnico e os estaduais acabam servindo como prolongamento da pré-temporada.

Até o final da década de 80 e começo da década de 90, os estaduais eram quase tão importantes quanto o Campeonato Brasileiro. Durante a década de 80, o Paulistão chegou a ser disputado em impressionantes 53 datas. Com o passar dos anos, foram perdendo força e sofreram um duro golpe em 2002, quando o Torneio Rio-São Paulo foi reformulado e os estaduais ficaram, em sua maioria, relegados a segundo plano, a ponto de clubes cariocas terem disputado grande parte da competição com times formados por juniores e jogadores não aproveitados nos profissionais. Com o advento da fórmula dos pontos corridos no Brasileirão, os estaduais foram “salvos”, mas vêm perdendo força ao longo dos anos.

Reitero que sou a favor dos campeonatos estaduais. É um título muito importante e valorizado pelos torcedores. Até por isso deveria se levar mais a sério e promover maior rigor técnico. Menos equipes vai significar um nível melhor e os times grandes vão poder se preparar com mais tempo e eficiência para as competições da temporada. Os times pequenos ganharão mais notoriedade: é difícil encontrar alguém que saiba de cor os 16 clubes do Carioca e/ou os 20 do Paulistão. Todos ganham, até as federações ganhariam em credibilidade. Os torcedores, que em sua maioria, adoram os estaduais, continuariam a prestigiá-lo. Este sim é um círculo virtuoso.