Por Silvério Machado
Pegue um clube desestruturado há muito tempo, com uma diretoria que herdou um legado pesadíssimo e oneroso. Somem-se a um elenco desacreditado, com um ambiente pesado, um técnico sem controle do grupo e os principais jogadores em rota de colisão com os “manda-chuvas”, com a torcida e com o bom futebol. Além disso, sem dinheiro para grandes investimentos para mudar a situação supracitada. O resultado? O Vasco neste começo de 2011.
Derrotas para Resende, Nova Iguaçu, Boavista e Flamengo, que culminaram com o pior início de Campeonato Carioca na história renderam ao Vasco e seus torcedores uma série de piadas sobre a ausência de pontuação após as quatro primeiras rodadas. Chacotas que vêm de todos os lados e obrigam até o mais orgulhoso dos vascaínos a se resignar e torcer por dias melhores e diferentes, ou iguais a um passado não tão distante.
A campanha no começo de 2011 e a aparente ausência de predicados para lidar com o grupo derrubaram o técnico Paulo César Gusmão. Sua trajetória pelo Vasco começou após a parada para a Copa do Mundo no ano passado, após o antigo treinador Celso Roth abandonar o barco (ou a caravela, para ser mais representativo), tentado por uma proposta do Internacional. Quando PC assumiu, o Vasco estava na angustiante 19ª colocação do Brasileirão, que contava com 20 clubes. Com muito trabalho e alguns reforços (Zé Roberto, Felipe e Éder Luis) ele conseguiu conduzir o Vasco ao 11º lugar, classificado para a Copa Sul-Americana. Posição honrosa, se considerada a situação quando assumiu, mas longe de ser condizente com as tradições do clube. No geral, PC Gusmão obteve um desempenho de 43%, com 10 vitórias, 14 empates e 10 derrotas.
Em seu lugar assume Ricardo Gomes, cujo último trabalho foi no São Paulo há seis meses, quando foi eliminado nas semifinais da Libertadores justamente para o Internacional, de Celso Roth. No comando da equipe paulista, Ricardo Gomes conseguiu o 3º lugar no Brasileirão de 2009 e foi eliminado na semifinal do Paulista de 2010. Saiu sem deixar saudades no Morumbi. Zagueiro campeão brasileiro pelo Fluminense em 1984, em cima do próprio Vasco, só obteve certa projeção como treinador em sua passagem pelo futebol francês. No Brasil, fracassou no Fluminense, no Flamengo e na Seleção Brasileira Sub-23, que não conseguiu se classificar para as Olimpíadas de 2004, com uma geração que tinha, entre outros, Diego e Robinho. Não é o técnico dos sonhos de ninguém, apesar das parcas opções no mercado atual.
Ricardo Gomes vai ter muito trabalho. Vai precisar agir em conjunto com a diretoria para conseguir jogadores para qualificar o elenco cruzmaltino. Não considero que o Vasco tenha um mau time. Fernando Prass é um goleiro seguro. Fágner e Ramón são laterais com boa técnica e muita força ofensiva. Dedé foi eleito o melhor zagueiro do último Brasileirão e ganhou a companhia do promissor Anderson Martins. O meio campo conta (ou contava?) com Felipe e Carlos Alberto, que dispensam comentários, e com Eduardo Costa, um volante de grife, apesar de estar devendo futebol há algum tempo. No ataque, o eficiente Éder Luis e Marcel, centroavante que não convence nem a ele mesmo.
O time é do nível da maioria das equipes do futebol brasileiro. A base é a mesma do time que reagiu no Campeonato Brasileiro do ano passado e chegou a ficar 15 jogos sem perder. O problema está na falta de opções no elenco e como montar um time confiável defensivamente. PC Gusmão pecou por deixar a defesa desguarnecida nesta temporada. Os laterais sobem muito e não tinham cobertura, pois nem Carlos Alberto, tampouco Felipe têm vocação defensiva. O que se viu foi um time desesperado na cobertura com apenas zagueiros e os dois volantes se matando para marcar o ataque adversário. Se Felipe e Carlos Alberto continuarem no elenco, Ricardo Gomes pode armar a equipe no 4-3-1-2, com Felipe na armação e Carlos Alberto no ataque ao lado de Éder Luis. Com isso, reforça o meio campo e não perde qualidade na frente. É uma opção, que, aliada a contratações, pode dar jeito no time em campo. Fora dele, a situação é ainda mais complexa.
O Vasco vive ano eleitoral e a oposição se aproveita do mau momento da equipe para tentar desestabilizar ainda mais o já conturbado ambiente. O ex-presidente Eurico Miranda está à espreita para voltar ao poder, seja ele próprio como mandatário ou elegendo um dos “seus”. A briga de Carlos Alberto com o presidente Roberto Dinamite nos vestiários do Engenhão, após a derrota para o Boavista, evidencia que os ânimos estão à flor da pele pelos lados de São Januário.
A torcida clama por solução, por time, por raça, por vitórias e por títulos, que não vêm desde 2003. Quer deixar de ser alvo de chacota, quer ver o famoso Vasco dos tempos do expresso da vitória, de Dinamite (jogador), de Edmundo, de Romário, de Juninho Pernambucano, que fizeram o Vasco ser conhecido e temido pelos outros times. Como dizia a mais pertinente das faixas vascaínas expostas no clássico contra o Flamengo, em alusão ao belo hino do clube: “Sua imensa torcida quer voltar a ser feliz”.


