Por Silvério Machado
Darío Conca, Walter Montillo e Andrés D´Alessandro foram três dos melhores jogadores do último Campeonato Brasileiro. O que eles têm em comum é óbvio: são estrangeiros, mais precisamente argentinos. Representam bem uma nova realidade que está surgindo no país do futebol: o mercado sul-americano nunca foi tão acessível e procurado pelos clubes brasileiros. Dos 20 clubes que vão disputar o Brasileirão da primeira divisão este ano, 15 contam com jogadores de outros países em seus elencos.
No total, são 30 jogadores, sendo que destes, apenas um não é sul-americano. Trata-se do atacante Geraldo, do Coritiba, natural de Angola. Isso mesmo: Angola. Ele tem apenas 19 anos e veio tentar a sorte no futebol brasileiro. Jogou a Copa São Paulo pelo Rio Claro até ser observado pelo Coritiba em um amistoso. Considerado uma das promessas do clube, já fez três gols com a camisa coxa-branca, inclusive o do título da Série B do ano passado.
Há outros casos curiosos. O zagueiro uruguaio Sorondo, do Internacional, conseguiu cidadania brasileira e agora tem dupla nacionalidade. O meia Breitner (seu nome todo é Overath Breitner da Silva Medina) tem 21 anos, nasceu em Barcelona, na Venezuela, mas é cria das divisões de base do Santos e atualmente está emprestado ao Figueirense. Prova de que os jovens estão sendo “garimpados” pelos clubes brasileiros também fora do país. Além disso, tem os casos de Deco, do Fluminense e de Liédson, recém contratado pelo Corinthians: eles são brasileiros de nascimento, mas se naturalizaram portugueses para defender a seleção daquele país, tendo participado inclusive da última Copa do Mundo. Se formos considerá-los como estrangeiros, o número sobe para 32.
Os clubes recordistas de estrangeiros no elenco são Internacional e Cruzeiro, com quatro jogadores cada. O time gaúcho já contava com os argentinos D´Alessandro e Guiñazu e este ano contratou mais dois hermanos: o atacante Cavenaghi e o volante Bolatti, que fez o gol que garantiu a Argentina na última Copa do Mundo. Isso sem contar o já supracitado Sorondo. E mais: todos eles são considerados titulares. É uma verdadeira filosofia da diretoria colorada. Cabe ressaltar que cada time só pode utilizar três jogadores estrangeiros por partida em competições organizadas pela CBF, o que obriga ao técnico do Inter deixar pelo menos um de fora a cada jogo (Sorondo, com dupla cidadania está livre desse impedimento). Mas na Libertadores, competição venerada pelo Inter e grande obsessão deste ano, não há limites e todos podem jogar . Vale lembrar que no ano passado o Inter contou com a presença do lateral uruguaio Bruno Silva e do goleiro argentino Abbondanzieri, que se aposentou.
Todos os quatro clubes grandes do Rio de Janeiro têm representantes internacionais. O Botafogo conta com os uruguaios Arévalo Ríos e Loco Abreu. O Flamengo também tem três: os chilenos Maldonado e Fierro e o argentino Darío Botinelli, e ainda Petkovic, que está afastado. O Fluminense tem, além de Conca, o colombiano Valencia. E o Vasco conta com o lateral paraguaio Irrazábal. Em Santa Catarina, o Avaí anunciou a contratação do colombiano Estrada e, na mesma semana, o Figueirense deu o troco, acertando com o paraguaio Pittoni, além de acertar o empréstimo de Breitner.
Muitas são as explicações para essa nova mentalidade do futebol brasileiro, que vai desde o sucesso de alguns estrangeiros, até a moeda forte do Brasil (Real) frente às outras dos vizinhos sul-americanos, passando pela disputa da Libertadores, que serve como pano de fundo para muitas das contratações. Os jogadores argentinos são maioria: 11, seguidos de Uruguai e Paraguai (4), Chile e Colômbia (3), Equador (2), Peru e Venezuela (1).
Não importa o motivo, o fato é que cada vez mais os gringos estão caindo na graça dos torcedores brasileiros. Um exemplo disso é a idolatria que a torcida do Botafogo nutre por Loco Abreu, a ponto de gritar o nome dele mesmo após ter perdido um pênalti no clássico contra o Fluminense. Além disso, durante a Copa do Mundo de 2010, enquanto ele estava na África do Sul fazendo suas “loucuras”, os botafoguenses torciam pelo Uruguai tanto quanto para o Brasil. O reflexo se deu logo depois do Mundial: as camisas confeccionadas com a cor azul celeste do Uruguai, com o símbolo do Botafogo e o nome do Loco Abreu venderam mais de 40 mil unidades, numa das mais bem sucedidas estratégias de marketing do futebol brasileiro. É, parece que eles vieram para ficar e mandar na bola, ou melhor, no balón.
Jogadores Estrangeiros nos clubes da 1ª Divisão:
ATLÉTICO – MG: Jairo Campos (EQU)
ATLÉTICO – PR: Nieto (ARG) – Guerrón (EQU) – Iván González (PAR)
AVAÍ: Estrada (COL)
BAHIA: Moreno (COL)
BOTAFOGO: Loco Abreu (URU) – Arévalo Ríos (URU) – Herrera (ARG)
CORINTHIANS: Ramirez (PER) – Liédson *
CORITIBA: Geraldo (ANG)
CRUZEIRO: Montillo (ARG) – Victorino (URU) – Farías (ARG) – Ortigoza (PAR)
FIGUEIRENSE: Pittoni (PAR) – Breitner (VEN)
FLAMENGO: Maldonado (CHI) – Fierro (CHI) – Botinelli (ARG)
FLUMINENSE: Conca (ARG) – Valencia (COL) – Deco*
GRÊMIO: Escudero (ARG)
INTER: D´Alessandro(ARG) - Bolatti (ARG) – Guiñazu (ARG) – Cavenaghi (ARG) – Sorondo (URU)
PALMEIRAS: Valdívia (CHI)
VASCO: Irrazábal (PAR)


