Por Silvério Machado
Tomo a liberdade de pegar emprestada a ideia do técnico da seleção brasileira (e por 18 meses de Ronaldo, no Corinthians), Mano Menezes para o título desta coluna. Ela faz alusão ao grito da torcida do Timão, que incentivou o time nas conquistas do Paulistão e da Copa do Brasil de 2009. Parece um clamor para continuar vendo Ronaldo jogar. Mas não este Ronaldo do último ano, que dividiu seu tempo entre campo-departamento médico. O Ronaldo que todos têm em mente e que ninguém queria ver parar é aquele que atravessava defesas sem se importar com quem estava na frente, como no antológico gol contra o Compostela, quando, jogando pelo Barcelona, arrancou desde o meio campo e fez uso de todas as suas melhores características: velocidade, explosão, força e conclusão exímia.
A história de Ronaldo começou como a de muitos outros meninos pobres da periferia do Rio de Janeiro. Chegou a fazer testes no Flamengo, foi aprovado, mas não retornou por não ter dinheiro para pagar as passagens dos quatro ônibus que teria que pegar até a Gávea. Acabou no São Cristóvão, que era mais perto de sua casa e que se comprometeu a custear a condução. Destacou-se e teve seu passe adquirido pelos empresários Alexandre Martins e Reinaldo Pitta. O valor: US$ 7.500,00 (sete mil e quinhentos dólares). Ínfimo para quem em 2002 valia mais de 43 milhões de euros, quando saiu da Inter de Milão e foi ser mais um galáctico do Real Madrid. Aliás, os valores das negociações de Ronaldo durante toda a carreira mostram quanto Botafogo e São Paulo bobearam em não investir 25 mil dólares em Ronaldo, quando os empresários supracitados ofereceram o então garoto de 15 anos aos clubes. O Cruzeiro apostou, pagou 50 mil dólares e teve retorno não só financeiro (um ano e meio depois o vendeu por seis milhões de dólares), mas também dentro do campo. Foram impressionantes 57 gols em 59 partidas.
Com o desempenho no Cruzeiro, Ronaldo chamou a atenção do Brasil e do técnico da seleção brasileira, Carlos Alberto Parreira, que o levou para a Copa com apenas 17 anos. Não chegou a entrar em campo na conquista do tetra, mas começava ali a história do maior artilheiro das Copas em toda a história. Foram 15 gols em quatro edições disputadas. Foi vice-campeão em 1998 e campeão em 1994 e 2002. História de craque, de gênio.
Ronaldo era Ronaldo Luis quando começou no Cruzeiro. Na Copa dos EUA em 1994, o grupo brasileiro contava com o zagueiro Ronaldão. Então ele virou Ronaldinho. Foi chamado assim até 1999, quando outro Ronaldo chegou à seleção: O Gaúcho, hoje no Flamengo. Então Ronaldo Luis Nazário de Lima virou Ronaldo, só. Apesar de muitos preferirem chamá-lo de Fenômeno, apelido que recebeu na Itália, quando jogava na Inter de Milão, período que foi também o pior de sua carreira. Em 1999 sofreu uma grave contusão no joelho. Quando tentou voltar, uma imagem chocou o mundo: em um jogo contra a Lazio, já em 2000, Ronaldo tenta uma pedalada e cai sozinho no gramado. O replay mostra que a rótula de seu joelho se desloca, provocando um “caroço”. Ronaldo sucumbe no estádio Olímpico de Roma. O mundo cai junto com ele, não acreditando ou querendo não acreditar no que via. Ronaldo é levado chorando, como choravam muito de seus fãs. Se Nélson Rodrigues fosse vivo, possivelmente escreveria que os deuses do futebol também estavam em prantos. Para muitos, ou quase todos, se encerrava ali, precocemente, a carreira do jogador que fora eleito melhor do mundo em 1996 e 1997.
As cenas de Ronaldo fazendo tratamento para voltar a jogar rodaram o mundo. Mas era difícil de achar alguém que apostasse que ele voltaria a jogar em alto nível. Mas ele voltou. Felipão apostou nele na Copa de 2002. O resto é história. Ronaldo foi eleito novamente melhor do mundo. Deu a volta por cima. Virou tema indispensável em qualquer palestra/livro de auto-ajuda. Virou comercial incentivando a não desistir, a tentar outra vez. Virou mito.
Não tive o prazer de ver Pelé, Garrincha, Zico e Maradona jogarem, por isso considero Ronaldo um dos melhores que pude acompanhar. Mais precisamente o segundo melhor, perdendo apenas para Romário. Mas sem dúvida alguma a história de Ronaldo é mais bonita. Não deve demorar a virar filme. Tenho orgulho de dizer que vi Ronaldo jogar. Obrigado, Fenômeno!
No total, Ronaldo fez 481 gols em 696 jogos. Destes, 62 foram pela seleção brasileira, se tornando o segundo maior artilheiro da história da seleção mais vitoriosa de todos os tempos. Está abaixo apenas de Pelé, que tem 95 gols com a “amarelinha”. O clube pelo qual mais vezes marcou foi o Real Madrid, onde balançou as redes 117 vezes em 193 partidas.
O menino de Bento Ribeiro ganhou o mundo. É um dos rostos mais conhecidos em todo o planeta. Teve tempo de voltar ao Brasil e dar a volta por cima mais uma vez no Corinthians. Mas seu corpo não respondia. Na entrevista coletiva de sua despedida, Ronaldo chorou e fez chorar ao afirmar que havia “perdido para o corpo”. Fez lembrar outro ídolo brasileiro, Guga, que quando se aposentou das quadras de tênis, declarou com olhos marejados: “Não é que eu não queira mais jogar. É que eu não consigo mais jogar”.
Certa vez, Didi, bicampeão do mundo com a seleção brasileira em 1958 e 1962, disse algo que vem ao encontro com o sentimento dos fãs do futebol neste momento. “Os ídolos deveriam ser eternos”.


