A Notícia

Sábado
19 de maio de 2012

Não é loteria

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Por Silvério Machado

Segundo o dicionário, um dos significados para a palavra loteria é: coisa ou negócio que depende do acaso. Ainda de acordo com o dicionário, acaso significa acontecimento incerto ou imprevisível; sucesso imprevisto, casualidade, eventualidade, sorte.

Virou moda no futebol brasileiro depois de decisões por pênaltis a expressão: pênalti é loteria. Isso serve pra justificar ou tentar arrumar uma desculpa para a ineficiência dos cobradores/goleiros quando as penalidades máximas definem o vencedor. É a saída mais fácil quando um time grande não consegue vencer um de menor investimento no tempo regulamentar e acaba perdendo o confronto nas cobranças de penalidades.

Foi o que aconteceu na primeira semifinal da Taça Guanabara, quando o Fluminense esteve duas vezes na frente do placar e deixou o Boavista igualar e levar a decisão para os pênaltis, de onde saiu vencedor. Na saída do jogo, o goleiro tricolor Ricardo Berna disse com todas as letras: “Pênalti é loteria”. Imaginava ele que com esse argumento estava justificado o fracasso de ser eliminado ainda na semifinal. A mesma expressão foi utilizada pelo técnico do Botafogo, Joel Santana, logo após ser eliminado nos pênaltis frente ao Flamengo, na outra semifinal da Taça Guanabara. Mas será que é verdade? Será que pênalti é mesmo loteria, obra do acaso? Como explica os significados dessas palavras, descritos no primeiro parágrafo, pode-se afirmar que não.

Creditar à sorte ou a falta dela, a sua falta de competência para defender ou fazer os gols é desacreditar o trabalho. Thiago e Felipe, goleiros de Boavista e Flamengo, respectivamente, não podem ter seus trabalhos desmerecidos após defenderem duas cobranças de penalidade. Creditar ao acaso o sucesso deles é não reconhecer os seus méritos. Por padrão, quando uma equipe vence uma disputa por pênaltis, o goleiro é exaltado, seu trabalho admirado. Já a equipe perdedora acaba apelando para o blábláblá da loteria... Isto é uma coisa que sempre me incomodou. Assim como toda a partida, a disputa por pênaltis é decidida pelos méritos de uns e falhas de outros. Quem é melhor na ocasião, vence. E ponto. Não devemos culpar o acaso pelos nossos fracassos. Isso serve tanto para o futebol quanto para a vida. Voltemos ao dicionário. Competência: capacidade para apreciar e resolver algo.

Ainda sobre as decisões por pênaltis, chama a atenção o desempenho do flamengo nessas disputas. Ao longo deste século, portanto desde 2001, o time rubro-negro já decidiu 10 vezes um confronto oficial nas penalidades máximas. E saiu vencedor em oito oportunidades. Seu maior “freguês” nesta disputa é justamente o Botafogo. Foram três confrontos assim e o Flamengo levou a melhor em todas: Finais do Campeonato Carioca de 2007 (4x2) e 2009 (4x2) e a semifinal da Taça Guanabara deste ano (3x1). Além do Botafogo, o rubro-negro venceu o Vasco na semi da Taça Guanabara de 2007(3x1) – Ceará, pela Copa do Brasil de 2003(4x3) – Grêmio, na semifinal da Copa Mercosul de 2001(4x2) – Juventude, pela Copa do Brasil de 2001(3x2) e Fluminense, na final da Taça Guanabara de 2001 (5x3). Das oito disputas, Júlio César, hoje na Inter de Milão, era goleiro em quatro, Bruno em três e Felipe em uma. As únicas derrotas do Flamengo aconteceram para o Santos, em jogo válido pela 1ª fase da Sul-Americana de 2004(4x5) e San Lorenzo (Argentina), na final da Copa Mercosul de 2001 (3x4). Nessas duas ocasiões o goleiro era Júlio César.

Se o Flamengo leva ampla vantagem em decisões por pênaltis, o mesmo não se pode dizer do Botafogo. Além de perder as três disputas já mencionadas, o alvinegro teve mais três confrontos dessa forma: perdeu duas e venceu apenas uma. A única vitória aconteceu na semifinal da Taça Rio de 2007, sobre o Vasco (4x1). O Botafogo perdeu para o Fluminense, na Sul-Americana de 2006 (2x4) e para o Corinthians, na semifinal da Copa do Brasil de 2008 (4x5). No total, desde 2001, perdeu cinco dos seis confrontos.

Outro time que não tem se dado bem nas penalidades máximas é o Vasco. Em sete confrontos, ganhou apenas dois. Contra o Friburguense, pela semifinal da Taça Rio de 2004 (5x4) e Fluminense, na semifinal da Taça Guanabara de 2010 (6x5). Mas o saldo também é negativo contra o tricolor carioca. Desde 2001, foram mais dois confrontos e duas vitórias do Fluminense. Nas semifinais da Taça Rio de 2005 (7x8) e 2008 (4x5). Além das derrotas para Flamengo e Botafogo já citadas, o Vasco ainda perdeu a chance de disputar a final da Copa do Brasil de 2008, ao perder para o Sport (4x5).

Além dos confrontos cariocas já supracitados, o Fluminense disputou outras duas decisões por pênaltis. Em 2005 venceu o Treze (PB) pela Copa do Brasil (9x8) e em 2008 veio a maior derrota da história do tricolor: na final da Libertadores, diante de um Maracanã lotado, o Fluminense fez 3 x 1 sobre a LDU no tempo normal e levou a decisão para os pênaltis. Aí brilhou a estrela do goleiro equatoriano Cevallos e o Fluminense perdeu por 3 x 1. No saldo deste século, foram oito confrontos, com cinco vitórias e três derrotas.