Na época das chuvas, o Rio Muriaé desce caudaloso da Barra ao Porto, ora em corredeiras fortes, assoreando margens, ora espraiando-se em remansos profundos, instigando mistérios em suas águas turvas.
Todo rio guarda em si lembranças de poesia e de mistérios. Os rios fazem parte da história humana. As sociedades iniciam-se em povoados às margens dos rios. Ali, surgem as cidades que, um dia, matarão o rio que lhes deu origem.
O Rio Muriaé já foi soberbo. Percorria a cidade em correnteza forte e volumosa, arrastando tudo o que estivesse em seu caminho. Em tempos passados, ainda não existia a Avenida Juscelino Kubitschek. Uma ou outra rua, estendia-se até ao rio, de resto, eram os quintais que lhe faziam fronteira. Quintais que eram verdadeiros pomares. Eram mangas, goiabas, sapotis, jabuticabas, pitangas, amoras, jambos e araçás... Algumas dessas frutas estão praticamente extintas em nossa região.
Na estação das chuvas, o rio inundava esses quintais, levando para o seu leito, restos de frutos, insetos e outros materiais orgânicos que alimentariam seus abundantes peixes. E o rio seguia o seu caminho. Lá pelas bandas do Rosário, do Porto e da Encoberta, precipitava-se em cachoeiras, num murmúrio surdo e constante que se escutava a centenas de metros de distância, como lamentos de despedida do rio que partia.
Possuía uma parte navegável ou, mais precisamente, canoável, que ia da praínha (após as corredeiras) até as proximidades da cachoeira do Rosário. Por ali, circulavam canoeiros famosos, como o sr. Manoel, o Clóvis, o Índio, o "Zé Mentiroso", o "Sô Lão", o Júlio Fárria e tantos outros que fazem parte da história do nosso rio. A bordo de suas embarcações de vinhático, uns, em canoas estreitas e ágeis, pescavam os piaus, os lambaris, os cascudos e os bagres que, àquela época, eram abundantes em nosso rio. Outros, em canoas largas e mais lentas, eram os tiradores de areia que, munidos de conchas de ferro com longos cabos de bambu, retiravam a areia do leito profundo do rio, alimentando com o seu paciente trabalho, a construção civil em nossa cidade. Os hábeis canoeiros faziam a canoa deslizar sobre as águas do rio com longos bambus cujas pontas fincavam no profundo do leito e com as duas mãos, forçando o bambu para baixo e para trás, impulsionavam a canoa para a frente.
Já houve tempo em que tomar banho no Rio Muriaé era moda entre a rapaziada. Uns preferiam a prainha, na Barra, outros, nadavam nas águas mansas ao final do "Beco do Simplício", hoje, Rua Júlio Brandão ou nos fundos do campo do Nacional, atrás da casa do Mário Venâncio, o grande craque do passado. Havia outros, mais audaciosos, que preferiam o mergulho, pulando das laterais da ponte de madeira ao final da Rua Capitão José Justino, a "ponte do Dr. Brum".
Na década de 50, ainda não existia aquela ponte de madeira. Ao final da Rua Capitão José Justino, havia uma ponte para pedestres, feita com quatro cabos de aço: dois na parte de baixo que sustentavam as tábuas do piso e dois na parte de cima que funcionavam como guarda-mão. E lá embaixo, as águas revoltas do rio à espera dos mergulhadores corajosos que dali se atiravam em mergulhos ousados. Muitos jovens aprenderam a nadar nas águas ameaçadoras do rio e muitos, ali também, perderam suas vidas. O rio, às vezes, era poesia, às vezes, tragédia. Seu leito guarda segredos e histórias incontáveis que se perderam no tempo.
Um dia, dinamitaram as cachoeiras do rio para evitar enchentes, como aquela memorável de 1946. As enchentes diminuíram, mas, o rio perdeu a sua grandeza e impetuosidade. Tiraram-lhe parte da alma, tiraram-lhe a majestade.
Mais raso e poluído, a cada dia o rio Muriaé, clamando por socorro, segue o seu caminho de penúria, morrendo em cada cidade, em cada vila, em cada aglomerado humano por onde passa. Desviará de obstáculos naturais, em seus meandros caprichosos, mas, não conseguirá se desviar dos homens que vão ao seu encalço, morar em suas margens e macular suas águas. Depois, cansado e doente, pedirá emprestado o leito do Paraíba para cumprir o seu destino... realizar o sonho de ser mar.


