Por Francisco Laviola
O mundo do futebol recebeu, consternado, a notícia da morte do ex-jogador Sócrates. Realmente, um grande jogador, um verdadeiro artista da bola, que fez vibrar todas as torcidas por onde passou. Jogando de cabeça erguida, encantava os amantes desse esporte com o seu toque de bola refinado, principalmente os surpreendentes passes de calcanhar.
Ídolo de uma das maiores torcidas brasileiras, o Corinthians, ele estava presente em quase todas as convocações da nossa Seleção, o que lhe rendeu homenagens póstumas não só no Brasil, mas também em outras partes do mundo. Ao contrário da grande maioria dos jogadores de futebol que hoje desfilam suas habilidades incontestáveis pelos campos brasileiros, era formado em medicina, gostava de discutir literatura, influenciar na política, falar da democracia com convicção, enfim, um indivíduo extremamente inteligente e politizado.
Todas as homenagens que o mundo do futebol prestou ao Dr. Sócrates foram merecidas. Só que, talvez em respeito ao grande ídolo que foi, deixaram de destacar que Sócrates morreu prematuramente aos 57 anos, em razão de uma cirrose hepática que fulminou o seu fígado, por conta do uso imoderado de bebida alcoólica.
Isso me fez lembrar também de Garrincha, considerado o segundo maior gênio de futebol da história do país, que tinha no seu drible a arma mortal para vencer os adversários, fosse jogando pelo meu Botafogo ou pela Seleção brasileira, onde ganhou duas Copas do Mundo na década de 60, e que também morreu de cirrose hepática, em razão da bebida.
Dois exemplos de ídolos de torcidas apaixonadas, um do passado e outro do presente, que driblaram todos os seus adversários, levando os seus torcedores ao delírio, mas que não conseguiram driblar o vício da bebida e acabaram derrotados de forma melancólica.
Quando as pesquisas indicam que nossos jovens estão começando a beber e fumar cada vez mais cedo, embora haja lei que proíba terminantemente a venda de produtos a menores de 18 anos, cujos componentes possam causar dependência física ou psíquica (Artigo 81 do Estatuto da Criança e do Adolescente), é hora de chamar a atenção das autoridades, governos, instituições e a própria sociedade, para, num esforço conjunto, buscar todas as soluções possíveis que tenham como objetivo impedir a proliferação da dependência química, especialmente no que se refere aos nossos jovens.
Quanto aos exemplos dos ídolos citados, não me envergonho de pedir permissão para transcrever e repassar ao leitor um trecho da crônica de um grande formador de opinião, o mestre Zuenir Ventura, que bem ao seu estilo, em sábias palavras, escreveu assim sobre Sócrates: “como um cara tão lúcido e inteligente, com uma bela trajetória de luta e resistência, de conquistas dentro e fora de campo, deixou-se destruir assim bela bebida? Tantas vezes exemplo de vida, ele acabou ensinando um mau jeito de morrer”.


