A Notícia

Quinta
09 de setembro de 2010

Descascando o abacaxi

E-mail Imprimir PDF

A volta ao cenário político do ex-ministro chefe da Casa Civil, José Dirceu, tem causado inquietação e desconforto ao presidente Lula, que teme os respingos de suas ações à candidatura oficial de Dilma Rousseff.

Oficialmente fora da vida pública desde o ano de 2005, quando teve seu mandato de deputado cassado sob a acusação de ser o mentor do maior escândalo do governo Lula, ele retorna à visiblilidade política ao ser eleito para o Diretório Nacional do PT, demonstrando que jamais deixou de exercer as suas influências dentro do partido, mesmo que extraoficialmente.

Processado pelo Supremo Tribunal Federal, acusado de formação de quadrilha juntamente com outras 39 pessoas envolvidas no escândalo do mensalão, só deverá ser julgado em 2011, após a oitiva de mais de 600 testemunhas arroladas pelos réus, fazendo com que a conclusão do processo, que tem a relatoria sob a responsabilidade do Ministro Joaquim Barbosa, esteja se arrastando por todos estes anos.

Embora processado pelo STF e em que pese a demora no julgamento, a aparição do ex-ministro declarando arrogantemente que subirá no palanque e que participará da campanha da candidata oficial é sintomática. Se por um lado o presidente Lula não deseja uma aproximação pública e direta do ex-ministro com o governo por razões óbvias, de outro, também não pode mandá-lo às favas, uma vez que José Dirceu por ter sido um ministro todo poderoso na época do escândalo, conhece os meandros dos bastidores do atual governo, fazendo com que seu silêncio e sua lealdade sejam imprescindíveis.

Já agora, como parte do ingrediente desse "mexido" indigesto para o Planalto, durante a semana, surgiram outras denúncias de que o ex-ministro teria feito recentemente lobby corporativo em favor de uma empresa privada que poderia ser beneficiada no Plano Nacional de Banda Larga, que é uma das prioridades do governo na reativação da Telebras.

O certo é que, se o ex-ministro mantiver a sua intenção de voltar ao cenário político, mesmo antes do seu julgamento final pelo STF, o governo, que evita a todo custo falar de mensalão, tentará blindar a candidatura oficial, mas terá que deglutir esse prato indigesto regado a uma salada de casca de abacaxi.